Brasília-Rio via Cidades Históricas Mineiras – 2010

Brasília-Rio via Cidades Históricas Mineiras – 2010

Lilian mandou brasa em sua Drag vermelha! Em um tiro de 750Km até BH no sábado 09/10/10, nascemos de novo depois de sobrevivermos à imprudência de um “fidirapariga” ultrapassando caminhão nas colinas perto de Três Marias. Só estou aqui digitando porque estava, anormalmente, do lado direito da via! Lilian, mais atrás, teve tempo e distância de reação para desviar para o acostamento, que por sorte naquele momento era transitável. Depois disso, qualquer problema na vida é irrelevante! A BR-040 entre Brasília e BH está um tapete, recuperada e recém-duplicada entre Sete Lagoas até quase o trevo de Curvelo. Exceto pelos 20Km próximos a BH, com vários remendos. As motos ficam vulneráveis… se ficar na faixa da esquerda, o carro pega, se ficar na faixa da direita, o buraco come. Chegamos à noitinha, com bastante cuidado neste trecho, e ficamos hospedados com amigos.

Domingo, a conselho deles, tiramos Ouro Preto do roteiro por causa da festa das repúblicas, e passamos em Congonhas pra visitar “Os Profetas” de Aleijadinho. Uma maravilha da arte brasileira! Não sem nos perdermos pelas ruas da cidade, claro! Após encontrarmos a igreja correta, rapidamente um guia se ofereceu para explicar as obras, oferta “genero$a” que declinamos. Com a igreja cheia de visitantes, foi fácil nos juntarmos a um grupo guiado de turistas e ouvirmos as orientações. Não se pode fotografar o interior da igreja, por conservação e segurança das obras. Após a rápida visita, pegamos as dicas para o acesso à Tiradentes e retornamos à estrada. O trecho BH-Congonhas também está meio deteriorado, com várias obras de recuperação da estrada e reforma de curvas.

A estradinha para SJdRei tem um “que” de especial. Atravessando algumas vilas e fazendas, oferece várias belas paisagens e ótimas curvas para serem apreciadas. No meio do caminho, em Lagoa Dourada, após uns quatro painéis divulgando o “famoso rocambole”, paramos para um lanche. E não é que o trem é bom mesmo, uai! Entramos em São João del Rei pra abastecer e rodamos pelo trechinho da Estrada Real até Tiradentes. Paralelepípedos e brita miúda só pra dar um tempero! A “Vila Rica” foi uma surpresa e tanto, inclusive o calçamento colonial! Lembra muito a velha Cidade de Goiás (Goiás Velho), da mesma época colonial, mas não tão terrível. Quando chegamos, no entardecer do domingo, paguei o mico de perguntar para os pedestres se faltava muito pra Tiradentes. O calçamento pior que ruim já estava enchendo o saco, e eu estava impaciente pra chegar logo e parar de sacudir. Achei que estávamos em uma pequena vila antes da cidade principal, quando na verdade já estávamos no centro!! Quem mandou não estudar pelo menos um mínimo das cidades a serem visitadas! Encontramos bastante movimento nas ruas, o que já trouxe preocupação quanto à hospedagem. Não reservamos nada, fomos “na cara e na coragem” mesmo, objetivando uma aura de viagem “sem destino”. Feriadão, e o primeiro hotel consultado estava lotado! Temos sorte, e o segundo hotel ainda tinha um quarto vago. Resolvida a questão logística, foi só passear a pé e curtir a famosa cidadezinha, suas ruas, becos e artesanato. De noite, um bom chopp no único bar que estava tocando rock, e notei vários adesivos de motoclubes no caixa. Sinais do famoso “Encontro de Tiradentes”, que ainda não conheço.

Segunda, um fato curioso. Acordamos tarde às 8h e estranhamos o pouquíssimo movimento no hotel. Saímos para uma volta a pé, curtir o início da manhã, e tudo estava fechado ainda. Cidade “calma”, pensei! Um feriadão, cheio de gente, e o comércio ainda fechado? Sem muita coisa pra fazer, procuramos o centro de informações turísticas, que abre às 9h, quase na hora! Chegou 9 e 15, e nada. Já conhecíamos todas as vielas. Como não estávamos encontrando os pontos históricos, fizemos o passeio de charrete. O calçamento colonial é tão ruim que até o burrinho passou aperto. Imagine a moto! Assim conhecemos o chafariz, as várias igrejas e suas obras de arte sacra barroca, a estátua de Tiradentes ainda alferes, sem barba (a única do mundo). A Vila Rica é realmente interessante! O cemitério ao lado da igreja principal me chamou a atenção, pelo contraste entre a simples cruz cravada no gramado e o jazigo monumental vizinho. Um relance do orgulho e soberba humanos, que, para alguns, nem depois da morte arrefece. A caveira no brasão do El Bando relembra-nos sempre que por baixo das vestes finas ou das grossas armaduras, e das peles de várias cores, somos todos iguais: ossos que um dia virarão pó!

Retornamos à praça, conferimos o centro de informações ainda fechado as 10h e comentamos com a recepcionista do hotel. Para nossa surpresa, ela informou que eram 9h, e não 10 como constava no meu celular. Ficamos com dúvida sobre o início do horário de verão e chegamos a consultar a informação na rede. Realmente, o horário de verão só começaria dali a uma semana. Estranho! Ajustamos o relógio e seguimos adiante. Aproveitando a proximidade e oportunidade, fomos para São João del Rei conhecer o centro histórico. Pegamos outro caminho para este retorno, pela BR. Muito bonita a estrada, como todas na região, pelo jeito!

Paramos as motos no centrinho, e como sempre o povo se espanta quando percebem que é “uma moça” na outra moto. Como se pilotar uma moto pelas estradas ainda fosse “coisa de homem”! As mulheres de hoje comandam caças supersônicos, submarinos nucleares, potências como Alemanha e Inglaterra (lembram da Tatcher?), empresas multinacionais megabilionárias, e tem gente que ainda se incomoda quando vê uma mulher pilotando uma moto, ainda por cima de colete! “Deve ser uma subversiva! Vamos queimar a bruxa!” parecem ser os pensamentos dessas gentes. Informo-lhes que os dinossauros foram extintos e a Inquisição acabou há 200 anos!

Depois de SJdoRei, em vez de seguir o plano original retornando para a BR-040 e de volta à Brasília, decidimos continuar pela região da estrada real antiga e seguir até São Lourenço para conhecer as famosas águas minerais. Cheguei a pensar em Cunha e a descida da serra para Parati, mas como é de terra, a época está chuvosa, e é a primeira motocada longa da Lilian, melhor não exagerar na aventura! Saímos da dupla SJ/Tiradentes com vontade de voltar com mais calma, e pegamos o rumo de São Lourenço. Em São Vicente de Minas o ronco do estômago estava maior que o das motos e paramos pra curtir a boa e barata comida mineira do interior. Em cara parada de lanche ou abastecimento, um batepapo com os locais era tudo que precisávamos para saber pra qual lado ir, que estrada pegar.

Chegamos em São Lourenço por volta das 17h. Atravessamos a cidade e na primeira pousada com cara boa paramos. A estrada simplesmente fantástica, curvas e mais curvas, uma serra pra curtir muito e gastar as laterais dos pneus! O “Rabo do Dragão” (estrada Dragon´s Tail, EUA) aqui vira “o fiofó da lagartixa”! O paraíso é aqui mesmo no Brasil, pessoal! E mais um mico: Achei que as águas de São Lourenço eram termais tipo as de Poços de Caldas, que conheci em 2005. Mas não! O cara do hotel rachou de rir e explicou que o foco aqui são as propriedades medicinais das águas radioativas, fluoretadas, gaseificadas, com leite condensado, flocos crocantes e chocolate Nestlé. O nome da cidade é derivado da “Companhia de Águas São Lourenço”, que explora as fontes de água mineral. Esta, por sua vez, hoje é da Nestlé. Ao ler esta informação na placa de entrada do parque das águas, penso em quantas outras fontes de água do Brasil foram discretamente parar na mão de grupos estrangeiros. Já se perguntou sobre isso? A cidade também é famosa no mundo motociclístico por seu “mega” encontro, que não me chama a atenção até hoje. Não que eu seja contra mega-eventos comerciais, é apenas uma questão de falta de curiosidade e motivação.

Um encontro digno de nota é o casal de Barra Mansa que conhecemos no hotel. Ela, mesmo após ter sofrido um derrame que lhe limitou alguns movimentos e fala, estava firme e forte ao lado do maridão. Ambos curtindo um belo passeio durante o feriado, que incluiu aniversário de um motoclube da região. Ambos muitos dispostos, aproveitando a vida e cheios de ânimo na terceira idade.

No dia seguinte, terça, fomos conhecer o tal parque. Aguinha ruim de beber, hein! Mas tudo bem, um dia posso precisar dela pra curar reumatismo, bico-de-papagaio, unha encravada, e outras… Ainda tínhamos um bom trecho pra chegar até o Rio de Janeiro, então fomos embora logo! Último dia do feriadão, iremos pegar a Dutra, e não sabia como estaria o trânsito, então quanto mais cedo melhor. Antes do almoço voltamos pra estrada, em direção à Itamonte e à fronteira MG/RJ onde tiramos várias fotos deste marco da viagem. Ainda subimos 6Km pela trilha do Pico das Agulhas Negras, à procura de uma ponte para batermos uma boa foto da região, conforme indicado pelo guarda da PRF, mas não encontramos e voltamos.

A partir de então, o que era doce virou amargo. A descida desta serra no RJ foi complicada: pista estreita, sinuosa, em obras, e uma fila interminável de carros. A tentação de cortar todos era grande, mas os pontos de ultrapassagem eram muito raros. Onde possível fomos avançando, sem pressa, ultrapassando um por um até encontrarmos a causa do engarrafamento. Quatro caminhões descendo a serra, segurando o tráfego e atravancando o progresso! Depois disso, foi “estrada aberta” até a Dutra. Movimentada como sempre, mas sem o exagero esperado da volta do feriado. Estávamos ainda no horário bom! A descida da Serra das Araras foi moleza depois do caos na serra anterior. Entramos no RJ ainda antes do anoitecer, curtindo o visual da “Cidade Maravilhosa”. Rapidamente chamamos os amigos para comemorar conosco mais esta chegada!

Comentários da Lilian: A Dragstar é muito confortável, cheguei em BH com disposição para mais 200Km! Andar na estrada é muito mais seguro que na cidade, apesar do susto relatado acima, que é muito raro. A autonomia surpreendeu positivamente, chegando a 250Km rodados sem abastecer. Em Brasília temos poucas curvas, tudo é muito plano, e esta viagem pelas serras da região da Estrada Real foi um grande aprendizado em como vencê-las! A pressão nas pedaleiras, a visão adiante, a aceleração, a tomada da curva, a observação das condições do asfalto, tudo isso foi importantíssimo. Assustei-me com vários filetes de óleo marcados no asfalto, sem saber se eram recentes ou já curtidos pelo tempo. Senti que devo melhorar nas manobras em baixa velocidade quando em subidas ou descidas, por exemplo ao estacionar na frente de algum local. Outro ponto a considerar é o sono na estrada, por conta do calor e do happy hour na noite anterior. Importante evitar abusos alcóolicos e dormir bem na noite anterior. Finalizando, viajar de moto é como o crack: vicia na primeira! Já estou querendo fazer outra viagem, mais longa!

Clique nas fotos para ampliar


Começando a viagem, em Brasília

Quase sem gasolina, e o posto abandonado

Lilian no KM52 da BR-040 em GO

Congonhas

Viajando juntos!

Tiradentes

Tiradentes

Cemitério

São João del Rei

São João del Rei

Parque em São Lourenço

marco da Estrada Real

“Não explico porque ando de moto! Para quem gosta, não é necessário,

e para quem não gosta, nenhuma explicação é possível”

Autor desconhecido


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