Andes 2017

Andes 2017
Andes 2017

De Brasília à Valparaíso no Chile, com uma Harley-Davidson Sportster 883, passando pelo sul do Brasil, Uruguai, Argentina, atravessando a Cordilheira dos Andes e chegando ao Oceano Pacífico. Para quem quiser ver no Youtube, também tem o canal El Voador

 

 

 

1º dia:

Saí de Brasília num sábado antes do sol nascer. Fui na companhia de alguns amigos. Danilo e Bressan foram comigo até o Rota 60, 100 km depois de Brasília. Renan e Luiz iriam comigo até Goiânia, mas quando chegamos lá, eles decidiram ir um pouco mais. Fomos juntos até Itumbiara, na divisa de GO com MG. Dali eles voltaram pra Brasília, totalizando um passeio de 800 km para eles.

A partir daí foi viagem solo. O tempo estava bem instável desde a saída de Brasília, tinha chovido durante toda a madrugada. Depois que saí de Itumbiara, peguei chuva bem forte por cerca de 40 km, mas depois o tempo abriu e seguiu mais firme. Em são José do Rio Preto – SP, quando parei para abastecer, escutei um barulho estranho na moto, parei para verificar e como eu já desconfiava, o protetor de correia da moto havia quebrado e estava arrastando na polia da correia. Parei no estacionamento da lanchonete do posto, peguei as ferramentas, terminei de tirar o protetor e levei na bagagem até resolver o que iria fazer.

Segui para Marília – SP, onde seria meu primeiro pernoite e após pegar algumas informações com moradores da cidade, consegui achar um hotel baratinho e com lugar para guardar a moto.

2º dia:

A partir de Marília – SP, saí da BR-153 e segui em direção à Londrina – PR. Logo após a divisa de SP com o PR, tem um dos pedágios mais caro do Brasil: R$ 9,50 para moto (imagina para carro). De lá eu iria descer em direção à Mauá da Serra, mas descobri que existe na região uma cidade chamada Califórnia e lembrei que quando eu era criança passava um comercial na TV onde a filmagem era feita em frente ao letreiro dessa cidade. Desviei um pouco a rota para tirar uma foto nesse letreiro hehe:

Saindo de Califórnia, segui para Mauá da Serra onde eu deveria pegar a BR 272 em direção a Ivaiporã – PR. Não vi o viaduto e passei reto, descendo uma serra muito bacana por cerca de 20 km até perceber que tinha me perdido. Dei a volta subi a mesma serra. Até que valeu a pena se perder por ali porque a serra é realmente legal.  Segui na direção de Guarapuava até chegar na BR 373 e seguir para Pato Branco – PR, onde meu amigo Régis (o mesmo que foi meu companheiro de viagem pelas serras do sul e Oktoberfest em 2016) estava me esperando junto com a Jack, sua namorada. O Régis agora mora em Chapecó e estava passando o final de semana em Pato Branco. Fui recebido por eles na casa da Jack.

Conhecemos a cidade durante a noite e eles me levaram para comer um tal de X Polenta. Muito bom esse negócio hahaha:

3º dia:

Dia de partir para Chapecó com o Régis. Descemos os 140 km de serra entre Pato Branco e Chapecó. Chegamos na cidade e consegui o contato de uma oficina para eu consertar o protetor de correia da moto. Régis me guiou pela cidade até chegar na oficina, onde conheci o Silmar Barbosa, da Barbosa Motorcycles Service. O cara é bem conhecido e muito bom mecânico, sabe tudo das HD’s da região e me colocou em contato com o Caverna do Canos Fumegantes MC, de Chapecó. Durante o dia fui conhecer algumas coisas na cidade e à noite fomos para a sede deles. O pessoal é muito bacana, me deram muitas dicas da estrada dali para frente. O Taylor, também do Canos Fumegantes, me deu algumas dicas de campings pelo Uruguai, lugares por onde eles já tinham passado.

4º, 5º e 6º dia:

Partindo de Chapecó – SC, entrei no RS e segui em direção ao litoral. Fui pelas estradas do interior passando por Tapejara e Vacaria, descendo pela RS 110 a partir de Bom Jesus, até entrar na BR 453, conhecida também como Rota do Sol. Mas nesse dia iria pegar apenas uma parte dela pois fui para Cambará do Sul, conhecer os famosos cânions da região.

Assim que cheguei, fui para um camping, armei acampamento e fui no centro da cidade procurar pelas agências que fazem os passeios. Marquei para ir conhecer o Cânion Fortaleza na manhã seguinte, pois durante a manhã é o melhor horário para os passeios, devido à várias condições climáticas da região. No verão é questão de sorte para conseguir ver os cânions e nesse dia o clima não colaborou. Isso foi tudo que consegui ver do Cânion Fortaleza:

Mas o dia ainda não tinha acabado, conheci o Aguinaldo, motociclista de SP que também estava em viagem pelo sul do Brasil. Contratamos um passeio de 4×4 pela rota das cachoeiras e o dia rendeu bastante:

 

No outro dia pela manhã eu já tinha desfeito acampamento e carregado a moto, quando recebemos a notícia que o Cânion Itaimbezinho estava com boa visibilidade e se fôssemos rápido conseguiríamos chegar a tempo antes da cerração tomar conta do lugar. Então eu e o Aguinaldo fomos e realmente demos sorte, a visibilidade estava boa e conseguimos ver o cânion e algumas cachoeiras que caem no local. Muito legal:

Eu iria embora de Cambará do Sul nesse dia, mas quando voltamos pra cidade já estava tarde e começou a chover. Como eu tinha tempo, resolvi ficar mais um dia por lá.

7º dia:

Saí de Cambará do Sul com o Aguinaldo, até o entroncamento com a BR 453 (Rota do Sol), onde ele seguiu em direção a Caxias do Sul e eu para o litoral.

Uma estrada muito bonita com alguns túneis cortando as montanhas, visual muito legal das serras, mas estava muito movimentada nesse dia.

Depois segui pela BR 101, a maior rodovia do Brasil com mais de 5000 km de extensão passando por todo o litoral brasileiro, indo do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Tive a brilhante ideia de seguir por ela até São José do Norte para pegar a balsa para Rio Grande sem antes ter pesquisado a situação da estrada. Esse trecho entre Capivarí do Sul e São José do Norte está uma belezura, com várias crateras. Tive que ir com bastante cuidado, sempre desviando dos buracos e atento com a travessia de animais. Vi muitos bichos mortos nesse trecho, além do intenso trânsito de caminhões com carregamentos de madeira.

Cheguei em São José do Norte às 16h e consegui pegar a última balsa do dia, às 17h, para chegar em Rio Grande.

Cheguei meio empolgado e já fui enfiando a moto na areia da praia até a beira do mar (nunca tinha andado com a moto na areia). Foi uma grande e bela aventura em 300 metros de areia com vários quase tombos e muitos espectadores torcendo para a areia ganhar essa disputa, mas não foi dessa vez, consegui sair dessa ileso rsrsrs.

Fiquei num camping bem simples, onde parei apenas para dormir e partir para o Uruguai no outro dia. Conheci o seu Guarani, um senhor aposentado muito simpático que estava há 3 meses nesse camping, morando num trailer. Ele passava o dia consertando coisas por lá.

8º dia:

Levantei acampamento bem cedo e fui saindo empurrando a moto até o lado de fora para não incomodar quem ainda estava dormindo quando vi a mesa em frente ao trailer do seu Guarani com uma garrafa de café e um baurú (sobras da janta do dia anterior), com um bilhete me desejando boa viagem. Tomei café da manhã e deixei outro bilhete agradecendo. Hora de partir para a fronteira. Saindo de Rio Grande, eu já tinha marcado no GPS o último posto da cidade, antes de entrar na BR 471. São 230 km daí até o Chuí, o que compromete a autonomia da sportster, dependendo da tocada. Eu já tinha lido que existe um posto na Reserva do Taim, que fica exatamente no meio do caminho, mas que nem sempre está aberto. Consegui chegar nesse posto e estava aberto, mas também descobri que não precisa se preocupar por ali, pois passei por 3 postos e todos estavam abertos. Na estrada é possível ver vários cata ventos gigantes para geração de energia eólica:

Também não podia faltar essa placa: From Hell yeaah:

Chegando no Chuí, a cidade parece uma grande feira. Muita gente de todo tipo, falando espanhol, falando português, não da pra entender nada. Procurei logo uma casa de câmbio, fiz o câmbio e fui para a fronteira, queria entrar logo no Uruguai. Os trâmites foram bem tranquilos, logo na saída da cidade já tem a aduana. Apenas com RG você consegue fazer a migração, mas como eu estava com o passaporte, usei ele, pois eu queria pegar os carimbos dos países.

Chegando no Uruguai, entrei em Barra del Chuy, apenas para conseguir ver o farol mais ao sul do Brasil. Logo em seguida voltei para a Ruta 9 e parei na Fortaleza de Santa Teresa, que fica dentro de um parque nacional. É importante ter dinheiro trocado aqui, a entrada é paga mas é bem barato, cerca de R$ 4,00 e vale muito a pena conhecer. dentro da Fortaleza também tem um museu.

Saindo da Fortaleza, fui conhecer a Punta del Diablo. Estava fazendo muito calor e a praia estava lotada. Gente de todo tipo, vários turistas e muita gente surfando. Só parei para conhecer mesmo e já saí pois tinha que chegar em La Paloma.

Na estrada entre Punta del Diablo e La Paloma, fui pego por uma tempestade muito forte que vinha do mar, não deu tempo de achar um lugar para me abrigar. Foi apenas 10 minutos de chuva, mas muito forte. Cheguei em La Paloma e rodando um pouco por lá e perguntando, consegui achar um hotelzinho mais em conta. Fiquei sabendo que perto de onde eu estava, tinha uma praia onde o por do sol é muito bonito, onde as pessoas até batem palmas no final. Fui lá conferir e é assim mesmo, por do sol muito bonito e todos que estavam na praia aplaudiram no final.

9º dia:

Saí de La Paloma cedo e voltei cerca de 50 km em direção ao Cabo Polonio, lugar que parece uma comunidade hippie, muito simples e muito bonito onde é possível ver os lobos marinhos que usam esse local para descanso. No caminho entrei em La Pedreira para conhecer o local e conheci o Valério, gaúcho de Rio Grande que também estava passeando de moto pelo Uruguai. Segui para Cabo Polonio e na entrada do parque nacional tem toda a estrutura para chegar ao local. Você vai pelas dunas de areia até a praia na carroceria de um caminhão 4×4 todo preparado com dois andares de cadeiras para levar o povo hehehe.

Tem muitos hostels, alguns restaurantes e bares no local. A pessoa pode passar um dia ou vários se quiser.

Aqui eu encontrei o barco que deu nome à moto do Filipec. Para quem não conhece, é o cara do blog RoadGarage. Ele também tem um canal no Youtube onde ele filma e relata suas viagens.

Essa é a vista do alto do farol:

Na volta, o pneu do caminhão furou e ficamos cerca de 40 minutos no sol esperando o resgate.

Saindo de Cabo Polonio, segui em direção à Punta del Este onde fui direto para um camping. O Ivan e o Fernando, dois catarinenses de Concórdia que eu tinha conhecido no dia anterior na Fortaleza de Santa Teresa, também estavam lá. Antes de anoitecer, dei uma volta pelo litoral de Punta del Este e fui visitar o famoso monumento da cidade, os dedos de Punta del Este. O nome oficial é “La mano del ahogado” (a mão do afogado). É do mesmo artista que fez La Mano del desierto, no Atacama:

10º dia:

Esse dia foi mais tranquilo. Conheci a orla da cidade, fui visitar a famosa Casa Pueblo mas não entrei no museu, vi apenas por fora e quase entrei com a moto em uma casa particular sem querer. Visitei também Punta Ballena que fica do lado e fui visitar o Museu del Mar. Vale muito a pena, lugar bem legal e com muitas coisas para ver.

Comi o tal chevito, um sanduíche tradicional do Uruguai além de muita Parrillada. O Ivan e o Fernando estavam fazendo churrasco lá no camping e me juntei a eles. Compramos cerveja e carne no mercado e ficamos no camping mesmo, muito legal. Eles estavam indo para Montevidéu no outro dia, coincidentemente, no mesmo dia que eu, então combinamos de pegar estrada juntos no outro dia, até lá.

11º dia:

Todos armaram acampamento cedo para partir. Dia de pouca estrada, são apenas 140 km de Punta del Este à Montevidéu. o Ivan e o Fernando já tinham um camping para ficar mais afastado da cidade e eu tinha reservado um hostel no centro da cidade. Na entrada da cidade nos separamos e eu fui para o hostel.

Aeee, km 52 internacional, valendo o patch vermelho do El Bando.

Chegando na cidade, dei uma volta pelo centro e descobri que ao lado do hostel ficava o Museo del Milagro de Los Andes. Pra quem não conhece, é sobre o acidente que aconteceu na década de 70 onde um time de Rugby de Montevidéu estava indo para uma competição em Santiago no Chile e o avião que eles estavam caiu no meio da Cordilheira dos Andes. de 45 pessoas, 16 conseguiram sobreviver depois de 72 dias na montanha congelada. Existem filmes e livros a respeito. Dentro desse museu, é permitido tirar fotos e filmar, mas fui orientado a não divulgar, então vamos respeitar. Pra quem conhece a história ou se interessar pelo assunto, vale a pena a visita.

Teatro Solis:

 

12º dia:

Fiquei apenas esse dia em Montevidéu, resolvi adiantar o roteiro e já partir para Buenos Aires. Ao contrário do que quase todo mundo faz, que é ir para Colonia do Sacramento e pegar o Buquebus, eu decidi ir pela estrada, dar a volta e atravessar a fronteira pela ponte internacional em Frey Bentos, pois o Buquebus estava meio caro e pelas contas que eu tinha feito, gastaria menos dando essa volta. Uma pena não ter conhecido Colonia, pois todos dizem que é muito legal e uma cidade muito bonita, mas vai ficar para a próxima (se depender de mim, não vai demorar muito). Saindo da Ruta 1 e entrando na Ruta 2, a estrada está em obras. Foram 52 km entre Colonia Valdense e Cardona praticamente na terra, muitas máquinas na pista e muita gente trabalhando. Daí pra frente, asfalto bom. Cheguei na fronteira e começou os perrengues (por burrice minha mesmo).

Na fronteira, o único lugar que tinha para trocar dinheiro era num vendedor de sorvete. Ele só trocava peso uruguaio e peso argentino e vice versa. Para trocar os reais que eu tinha, precisava voltar e entrar em Frey Bentos e isso era uma coisa que eu não queria fazer, então troquei o restinho de peso uruguaio que eu tinha em peso argentino, fiz a fronteira que também foi bem tranquila e atravessei para a Argentina, torcendo para meu cartão ser aceito pois o dinheiro que eu consegui trocar dava apenas para um tanque de combustível e eu precisava de dois tanques para chegar em Buenos Aires. Comida e outros gastos estavam fora de cogitação.

Ponte internacional:

No primeiro posto de gasolina, tentei passar meu cartão e ele não passou, por sorte a moto estava fazendo uma boa média de km/l então sobrou um pouco de dinheiro, mas o que sobrou não dava nem para meio tanque e eu precisava abastecer mais uma vez antes de chegar em Buenos Aires. Sol de rachar, estava com fome e com pressa, tirei essa foto rápida, km 52 na Ruta 9, nem capacete eu tirei.

Chegou a hora de abastecer de novo. Contei o restinho de dinheiro e pedi pra colocar tudo de gasolina. Para minha surpresa, deu para encher o tanque. É por isso gosto dessa moto, nunca me deixou na mão e sempre que eu preciso, ela me ouve. Mas na hora de pagar, lembrei do outro cartão que eu tinha levado, tentei passar e não é que o bendito passou!! Agora sim, até lanchei no posto. As aventuras do dia ainda não tinham acabado. Depois de Zarate, houve um acidente entre caminhões que fechou a pista, ninguém passava. Tive que ir desviando por calçadas, gramados, entrando e saindo de pequenos vilarejos por pelo menos 1h até conseguir retornar à rodovia. Cheguei em Buenos Aires no horário de pico com muita bagunça na cidade pois estava tendo um protesto que fechou a rua para onde eu estava indo, mas nada que não dê para se desvencilhar usando a experiência de andar de moto no Brasil.

13º e 14º:

Esses dias fiquei em Buenos Aires, para conhecer um pouco da cidade. É uma cidade bem agitada, comparando-se a São Paulo. Fui em alguns pontos turísticos, conheci algumas pessoas muito legais. Fui numa ótica para consertar meu óculos de sol que havia quebrado em Montevidéu e o senhorzinho da ótica consertou de graça para mim. Ponto positivo para os Argentinos hehehehe. Ao contrário do que ouvi muito falar, achei as pessoas muito simpáticas e fui bem recebido e bem tratado em todos os lugares que fui.

Congresso Nacional:

Casa Rosada:

Obelisco:

Um dia antes de partir de Buenos Aires, houve outra manifestação na cidade, descobri que eles estavam manifestando a respeito de uma reforma na previdência (qualquer semelhança é mera coincidência, ou não). Nesse dia eu estava do outro lado da cidade com um amigo, mas minha moto estava parada em frente ao hostel onde eu estava hospedado. Vimos a manifestação pela televisão e descobrimos que era na rua onde minha moto estava parada, com os manifestantes já enfrentando a polícia, depredando as lojas, colocando fogo nos containers, ou seja, estava um caos. Saímos rápido de onde estávamos pra pegar o metrô e voltar pro hostel e ver se a moto ainda existia e se estava inteira. Para minha sorte, cheguei e ela estava lá parada do mesmo jeito que deixei, apenas com uma madeira escorada nela e uma bandeira deixada pelos manifestantes. Já a situação da rua, não se pode falar o mesmo.

 

15º dia:

Dia de partir de Buenos Aires em direção à Mendoza. O caminho mais comum é pegar a Ruta 7 e seguir por 1000 km de reta, mas pelo que e já tinha olhado na internet a Ruta 7 está em reforma entre Buenos Aires e Rufino, então é preciso fazer uma volta pela Ruta 8, então vamos nessa. Saí de Buenos Aires pela manhã, com um sol de rachar, mas não por muito tempo. O vento lateral estava muito forte, a moto só ia de lado e constantemente uma cortina de poeira passava cobrindo a estrada. Cada ultrapassagem de caminhão era um desafio. Mais ou menos 200 km depois de Buenos Aires, surge no horizonte uma tempestade. Já fiquei atento procurando algum lugar para me abrigar, mas não tinha nada. A estrada é uma reta infinita sem nada ao redor por dezenas de quilômetros e cada vez eu chegava mais perto da tempestade. Conseguia ver os relâmpagos dentro dela e com a velocidade que o vento estava, a espinha começou a gelar. Por sorte, quando caiu os primeiros pingos, apareceu na beira da estrada um abrigo com um desses containers de carga, onde estavam alguns hermanos trabalhando em obras na estrada. Não pensei duas vezes, já entrei com a moto direto. A tempestade ficou tão forte que tivemos que entrar no container e fechar tudo. Os caras fizeram até um chimarrão lá dentro. Fica aí o meu agradecimento a esses caras que me salvaram esse dia. Depois da tempestade, o céu abriu e ficou azul outra vez, sem nenhuma nuvem na direção que eu estava indo. Em Venado Tuerto desci pela Ruta 33 até Rufino, para entrar na Ruta 7. Esse dia eu estava pensando em rodar até Mendoza, mas no meio da Ruta 7, apareceu outra tempestade e decidi não arriscar mais esse dia. Parei numa cidade chamada Vikuña Mackenna, depois de cerca de 600 km, antes dessa nova tempestade chegar. Depois vi que essa foi a melhor escolha, pois assim que achei um hotel para ficar, desligaram a energia da cidade toda e começou a tocar uma sirene de alerta de tormentas, avisando para todos se abrigarem porque o negócio vai ser feio. Essa sirene ficou tocando durante a noite e a madrugada.

16º e 17º dia:

Saí cedo de Vikuña Mackenna e estava muito frio. Ao menos o vento lateral diminuiu e estava bem mais fraco que no dia anterior. Nessa parte da Argentina as estradas são bem parecidas.

Fotinha em homenagem à companheira de estrada:

Cheguei em Mendoza no meio da tarde e eu já tinha reservado um hostel no dia anterior. Dei uma volta pela cidade e fui no Parque General San Martin, um parque muito grande com muita área verde, fontes e tudo mais, bem bonito. A cidade eh rodeada de dutos que captam a água do degelo dos Andes para ser aproveitada. No dia seguinte, acordei e fui olhar a moto, percebi algo estranho. Quando cheguei perto, vi o manicoto e a alavanca de embreagem tortos. Na hora o sangue já começou a ferver e vi que alguém tinha tombado minha moto. Falei com o pessoal do hostel e ninguém sabia de nada. Tentei manter a calma, peguei as ferramentas e coloquei o que dava no lugar. Não era nada muito grave mas uma coisa que irrita qualquer um é saber que alguém encostou em sua moto sem sua permissão e sem você ver e o pior, derrubou ela. Já no final da tarde, depois de já ter me acalmado e dado uma volta pelos arredores da cidade e de ver a cordilheira mais de perto, encontrei o sujeito que derrubou a moto, ou melhor, ele me encontrou e veio falar comigo. Depois de alguns minutos de conversa, nos acertamos. Mais tarde chegou outro motoqueiro no hostel, fui conversar com ele e descobri um brasileiro, mas que mora na Argentina há 20 anos. Diego e sua esposa Cecília também estavam vindo de Buenos Aires e indo para Santiago no próximo dia e decidimos fazer essa travessia juntos, pela Cordilheira dos Andes.

18º dia:

Depois de tomar café, eu Diego e Cecília partimos de Mendoza em direção ao que seria o ápice da viagem: Atravessar a Cordilheira dos Andes. Saímos de Mendoza e seguimos pela Ruta 7 em direção à Uspallata, última cidade da Argentina nessa estrada, antes de chegar na fronteira com o Chile. É emocionante ter chegado até aqui e presenciar a grandiosidade dessas montanhas tão de perto. Apesar desse local de travessia não ser o com maior altitude nos Andes, é importante estar sempre cuidando da hidratação e bebendo muita água para não ter nenhum mal-estar devido à altitude. Eu achei que ia sofrer um pouco, mas não senti nada na subida da cordilheira. Encontramos mais alguns brasileiros na cidade de Uspallata, no meio da cordilheira. Todos com motos big trail, também indo para Santiago mas depois cada um ia para um lugar diferente. Alguns indo para o Deserto do Atacama, outros indo pra o Ushuaia e todos muito gente gente boa. Uma foto no posto de gasolina para guardar de recordação:

Eu, Diego e Cecília saímos de Uspallata na frente do outros para ir fazer a fronteira com o Chile. Essa Fronteira é muito burocrática, ficamos cerca de 1h preenchendo formulários, fazendo migração e aduana, carimbando papel, passaporte e depois de tudo, uma revista na bagagem com cães farejadores.

É proibido entrar no Chile com qualquer tipo de fruta ou comida. Então quem for pra lá, já sabe, coma tudo o que tiver na bagagem antes ou jogue fora, pois na fronteira eles não perdoam. O Diego estava com uma maçã no baú da moto mas conseguiu conversar com o agente da fronteira e evitou uma multa, mas a maçã já era. Depois, finalmente, Bienvenidos a República de Chile, yeaaaah \m/.

Logo após atravessar a fronteira, encontramos esse lugar, formado pelo degelo dos Andes:

Continuamos e chegou a hora de descer os Andes pelos famosos caracoles. São 29 curvas bem fechadas e é bem divertido. No meio existem vários túneis e há muito fluxo de caminhões. Tudo isso com as montanhas com gelo no topo ao seu redor. Como é verão, nessa época do ano só tem gelo nas partes mais altas das montanhas.

Já na entrada da cidade de Los Andes, no Chile, paramos para almoçar e seguir para Santiago, pela Ruta 57. No meio da tarde já estávamos em Santiago e a cidade estava bem movimentada. O trânsito nas capitais desses países da América do Sul é muito intenso.

Depois de um tempo tentando achar algum lugar para ficar, o Diego achou um hostel. Chegando lá, a maioria das pessoas eram brasileiras, inclusive alguns funcionários do hostel. Decidimos ficar o final da tarde e a noite por perto. Compramos comida e cerveja num mercado perto e ficamos no hostel mesmo descansando.

19º dia:

No dia seguinte, fomos em algumas lojas de peças e acessórios de moto, pois o Diego precisava comprar óleo para a moto, que já tava com a quilometragem de troca. Eu aproveitei e fui na loja da Harley Davidson de Santiago para ver o preço da manete e do manicoto para minha moto. Chegando lá, o valor era 1/3 mais barato que no Brasil.

Aproveitei e comprei logo e voltei para hostel para fazer a instalação:

Agora sim, tudo certo.

20º dia:

Diego e Cecília ficaram mais um dia em Santiago, eu segui para Valparaíso pois no outro dia iria começar a viagem de volta para casa. Eu não queria voltar antes de ver o pacífico, já estava tão perto. Cheguei em Valparaíso, pela Ruta 68, achei um hostel, guardei a moto e fui andar pela praia. Olha quem eu achei por aqui outra vez:

Mais lobos marinhos hehehe.

A vista pro pacífico é muito bonita, mas é difícil entrar na água aqui. Como é o final da cordilheira, tem muitas pedras e poucos locais para entrar na água. Há muitas placas com orientações de evacuação em casos de tsunami:

E também placas de proibido entrar na água:

Dei uma passada rápida em Viña del Mar. É uma cidadezinha muito bonita e achei muito mais interessante que Valparaíso. Aqui finalmente eu cheguei no lugar mais longe que já estive de casa e estou no início do fim da viagem, mas ainda tem muita estrada pela frente.

 

21º dia:

Agora começa uma outra jornada: A volta para casa.

Saí cedo de Valparaíso, seguindo pela Ruta 60 para chegar logo à fronteira. Um pouco antes de San Felipe, aconteceu um acidente entre dois caminhões. Infelizmente foi fatal para pelo menos um dos motoristas. A estrada ficou completamente fechada e não tinha como passar. Se eu fosse voltar e contornar, teria que dar uma volta de cerca de 200 km. Decidi esperar liberar a pista. Depois de quase 2 horas parado a estrada ainda não tinha sido liberada.

Conheci um chileno e um colombiano que também estavam de moto e logo depois chegou apareceu um outro chileno local, que conhecia a região. Seguimos ele por um desvio de terra que passava por dentro das fazendas. Dizendo ele que era cerca de 3km de terra, na verdade foram mais de 6km. Mas deu tudo certo, conseguimos contornar a estrada fechada e consegui seguir viagem.

Agora é a hora de refazer o caminho, mas no sentido contrário. Na fronteira Chile/Argentina, conheci uma francesa que comprou uma moto no Chile e estava sozinha viajando pela América do Sul. Na estrada é assim, sempre encontramos esses exemplos a serem seguidos.

Parei para almoçar num complexo turístico logo após a fronteira e dessa vez lembrei de tirar foto da Puente del Inca. Na ida, eu e o Diego esquecemos e passamos direto:

Parei outra vez em Mendoza pois estava com ameaça de muita chuva e só havia nuvens negras ao redor da cordilheira no lado argentino. Resolvi não arriscar e parar por hoje.

22º dia:

Saí cedo de Mendoza para aproveitar e seguir o máximo possível. Daqui pra frente não tinha muita coisa planejada. Fui pela Ruta 142 até o entroncamento com a Ruta 20, de onde eu seguiria para Córdoba. Mais um km 52 para a coleção:

Depois de Villa Dolores, há uma serra muito legal, que eu não sabia que iria passar até chegar lá, passando pelo Parque Nacional Quebrada del Condorito. Muita gente sai de Córdova de moto para fazer essas serras, gostei.

Cheguei em Córdova e ainda estava com sol, então resolvi dar mais uma esticada até La Francia, onde pernoitei.

23º dia:

Dia 24 de Dezembro, véspera de Natal. Saí de La Francia em direção à Santa Fé e Paraná, onde há o túnel sub pluvial de 3km de extensão que passa por baixo do Rio Paraná:

Daqui para frente, pela RN 127 e RN 14, é onde há os conhecidos relatos sobre a polícia do norte da Argentina. Fiquei com um pouco de receio de passar por esse local sozinho. A Ruta 127 está muito precária, com muitos buracos. Recomendo evitarem ela se possível. A Ruta 14 está boa, nada a reclamar. Fui até uma cidadezinha chamada San José no entroncamento da Ruta 14 com a Ruta 105, onde não há lugar nenhum para dormir. Fui para uma cidadezinha chamada Apóstoles, 10 km descendo pela Ruta 105, e encontrei um hotelzinho para passar a noite. Resultado do dia: 950 km rodados, fui parado pela polícia 5 vezes (até então só havia sido parado uma vez no Uruguai), mas felizmente não recebi nenhuma multa nem “pedidos de contribuición”. Noite de Natal foi no quarto do hotel, apenas descansando e vendo a TV local.

24º dia:

Feriado, saí de Apóstoles, seguindo a Ruta 105 e depois a Ruta 12. Mais um dia no famoso norte da Argentina. Parei no Parque Nacional Iguazú e fui conhecer as cataratas:

Garganta del Diablo:

Vale muito a pena conhecer o Parque. Têm muitos atrativos legais.

Depois de conhecer as cataratas, segui para Puerto Iguazú. Aqui também tem coisas legais pra fazer, uma delas é conhecer o marco das três fronteiras (Brasil, Argentina e Paraguai):

Pernoitei em Puerto Iguazú para no outro dia atravessar a fronteira e finalmente voltar ao Brasil.

25º dia:

Acordei, fiz checkout no hostel que fiquei e quando chego na moto, uma surpresa: Furtaram minhas ferramentas durante a madrugada. Abriram a bolsinha e levaram tudo. Também levaram minha capa de chuva que eu não costumo tirar da moto. Mais uma lição aprendida: por mais que dê trabalho, tire tudo da moto se ela for ficar na rua. Bom, agora é arcar com o prejuízo. Dos males, o menor.

Agora sim, de volta ao Brasil.

Mesmo à 1700 km de Brasília, já me sinto em casa. Mas ainda não é hora de pegar estrada, e sim de manutenção. Trocar óleo e filtro de óleo, verificar o filtro de ar e dar um check-up geral antes de prosseguir. Através de grupos de Whatsapp, me passaram o contato do Luis, do Bip Garage Motorcycle em Foz do Iguaçú. Eu só queria comprar o óleo pois eu mesmo iria trocar. Apesar de terem roubado as ferramentas, algumas estavam na mochila, inclusive o saca filtro de óleo. Mas Chegando na Garagem do Luis, ele prestou toda a assistência e fez questão de fazer o serviço. Ele é um mecânico bastante conhecido na região, também viajante de moto. Enquanto fazíamos a manutenção, me contou vários dos seus casos da estrada. Quem estiver de passagem por Foz do Iguaçú, vale a pena conhecer a Bip Garage.

Eu iria sair de Foz somente no próximo dia, mas decidi adiantar o percurso e saí no início da tarde, logo depois de feita a manutenção na moto. Acredito que foi uma decisão ruim, porque logo depois começou a chover. Para não ficar repetindo estrada, decidi voltar pelo Mato Grosso do Sul, pois nunca passei por essas estradas. Em Guaíra, na divisa do PR com MS, a chuva estava tão forte que não dava para continuar. Passei a ponte sobre o Rio Paraná e resolvi esperar em baixo de uma cobertura. Logo depois apareceu o Felipe, também de moto, na mesma situação que eu, tentando fugir da chuva forte. Ele é do Raça, que pertence ao Abutre’s MC. Estava escurecendo e eu sabia que não ia ter condições de chegar em Campo Grande. O Felipe é de uma cidade chamada Deodápolis, perto de onde nós estávamos. Fomos para sua cidade e chegando lá, fui recebido pela pessoal do Abutre’s e convidado a passar a noite na sede deles, onde me deram todo o apoio necessário.

26º dia:

Pela manhã conheci o Gordão que é diretor regional, cara muito gente fina que me deu algumas dicas da estrada daí para frente. Me apresentou também algumas de suas motos, dentre elas uma Fat Boy carburada 1992 muito bem conservada, fera demais. Fiquei muito grato pelo apoio.

Estava à 300 km de Campo Grande, então no meio da manhã peguei estrada pra conseguir ao menos passar da divisa entre MS e GO. Cheguei em Chapadão do Sul no meio da tarde, onde aconteceu um pequeno imprevisto: enchi o tanque da moto num certo posto na BR 060, na saída da cidade e instantaneamente senti a moto diferente. Andei 4 km e a moto mais falhava do que andava. Achei outro posto de gasolina dentro da cidade, pedi ajuda para o frentista e tiramos toda a gasolina do tanque. Fizemos o teste e o resultado: 47% de álcool. Um exemplo da falta de fiscalização em postos de combustíveis.

Depois do imprevisto, consegui tirar uma foto com o tatu gigante, um dos vários monumentos que ficam espalhados pela cidade:

Segui até Jataí, no Goiás, onde passei a noite já perto de casa.

27º dia:

Último dia de viagem, ansioso para chegar em casa, faltam apenas 500 km.

Goiás é o quintal de casa, seguindo pela BR 060, passando por Goiânia, e finalmente, no início da tarde do dia 28 de dezembro, depois de quase 11 mil km, estou em casa.

A moto se comportou de maneira a superar as expectativas durante toda a viagem, sem me dar nem um problema e tudo correu melhor que o esperado.

Agora é começar o planejamento para a próxima. E aí, para onde?

Compartilhe!

10 Responses »

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *